segunda-feira, 3 de março de 2014

Primeira aula de Ballet


Faz dias que espero por isto. Dias não, faz anos. Não me recordo a primeira vez que fui apresentada à dança. Eu tinha oito anos a primeira vez que fui a uma aula de dança. Lembro de minha mãe me convidando para começar a dançar “jazz” pois ela havia feito esta dança quando era jovem e achou uma idéia legal eu conhecer. A professora da minha mãe se chamava Eire, algo assim. Eu imaginava uma moça muito alongada de cabelos longos também, com um macacão preto, de tecido elástico, fazendo giros. Não sei porquê mas também me vinha a imagem de uma moça dos anos 80 dançando com uma polaina preta e outra cor-de-rosa, uma cor em cada perna, e um prendedor de cabelo em tom vermelho, com um rabo preso bem alto. Talvez o meu primeiro contato com a dança tenha sido pela televisão, assistindo a algum filme em que as moças se vestem ao modo Flashdance.
                Eu, pequena e com um pouco de gordura acumulada na região da barrida, fui fazer a minha primeira aula de jazz. Depois da aula, me lembro de chegar na casa da minha avó, me colocar em frente ao espelho da penteadeira branca, estilo rococó, de ferro, linda, e repetir alguns movimentos, que eu achava que tinha experimentado na aula. Um começo do meu envolvimento com o corpo e a dança. Então eu comecei, três vezes por semana, segunda, quarta e sexta, duas horas por aula, no período da noite.
                Dois anos depois eu já conseguia fazer abertura, lateral, frontal, e ainda fazia abertura frontal e continuava ela em um mergulho em que minha barriga deslizava pelo chão. Dancei, dancei e dancei. Ao final de todo o ano tinha o espetáculo de dança em que todas as turmas apresentavam uma coreografia, embelezadas por um lindo figurino e um belo cenário. Além das coreografias de apresentação eu inventava em casa também as minhas próprias. Colocava para tomar no rádio da sala o cd do Djavan. Cada música recebia a sua sequência de passos e no final eu ganhava aplausos e fazia um agradecimento. Me retirava do palco correndo para a coxia do canto. O que sobrou foi um cartaz de apresentação do teatro, que eu colei em um álbum de fotos da Minie, uns bilhetes de entrada, uma sapatilha de ponta, doada pela professora no sorteio de turma, e um encantamento. Alguns sonhos noturnos, com fitas, sapatilhas e danças, vieram também, depois.
Parei de dançar aos treze anos. Aos treze porque disse para mim mesma que era coisa de bobinha fazer aula de dança. Meus olhos delineados de preto e a camiseta do Slipknot não me permitiriam girar a vontade durante as aulas de um quase ballet. Por alguns meses, algumas idéias, e uma escolha feita por uma menina envergonhada de viver mais, eu não me tornei uma bailarina.
                Alguns meses antes de eu sair da dança a professora de jazz, eu a achava linda e a admirava muito, me disse que no próximo ano eu já poderia entrar no ballet e tentar pegar ponta, pois a minha experiência com dança e jazz faria com que eu conseguisse acompanhar as outras turmas de bailarinas. Mas foi um instante de abertura no tempo, que agora se encontra concluído, fechado, pois é um em-si, na teoria de Sartre, o que fez com que ficasse para mim algumas imagens de aulas, do meu corpo se movendo, o meu colã preto, a sapatilha de pano preta, e o sorriso da minha professora de jazz. Apenas imagens e sensações de imagens.
                Então eu fui vivendo, freqüentei algumas aulas de dança, fui a algumas apresentações de fim de ano de outras dançarinas, e assisti ao filme do Benjamin Button. A cena da Daisy, em que ela dança para ele ao redor de um lago, fez com que, em cada cena de filme, em que eu me “experienciasse” dançando, sentisse viva a minha vontade de dançar. Nove anos depois, finalmente, decidi me matricular em uma escola de Ballet.
Matriculei-me nas aulas de ballet iniciante adulto. Em mim, uma sensação de perda, de vontade, de passado e de futuro ao mesmo tempo. A tentativa de tornar-me algo concluído, um nirvana, uma espécie de totalidade, quando eu fizesse a primeira aula de ballet. Era uma terça-feira. Subi as escadas. Algumas meninas desciam exuberantes com suas meias rosa bebê, sapatilhas e coques ao topo da cabeça. Ouvi dizer que em cima da cabeça estaria o chacra coronário, a glândula pineal, ou uma elevação de postura que poderia fazer um salto em plié deixar a pessoa mais alongada e pronta para qualquer coisa.
                A sala era um pouco pequena, começou a chover. O espelho repartia o meu rosto em dois, e eu não conseguia sentir um lado do corpo alinhado com o outro. Parece que o quadril cairia para um lado se meu braço se movesse para o outro. Dor, cansaço, mal consegui colocar a ponta dos dedos das mãos no tornozelo. Mas eu me sentia linda com a minha meia cor-de-rosa de ballet, sapatilhas novas da mesma cor, e um colã preto com uma saia preta, o que fazia com que eu me sentisse ao menos naquele espelho que me repartia em várias, uma bailarina.

                Espelho torno, sala torta, bailarina torta. Tudo parecia muito rápido e intenso. Eu pensando em ser uma bailarina, as meninas ao redor repetindo movimentos, meu corpo experimentando ser um outro corpo, um mesmo outro corpo. Os primeiros movimentos que fiz foi plié, tendu (pronuncia-se “tandi”), demi, jeté. As minhas pernas se movendo em arcos me trazia um sentimento visceral de pertencimento ao meu próprio corpo.  Ainda não consegui fazer muita coisa, foi pouco, aliás, bem pouco para o que eu me imaginei fazendo. E eu, acostumada com os passos saltitantes de jazz, com as movimentações sem muito me preocupar com tanta força muscular, fizeram com que eu desacreditasse na minha potencialidade de vir-a-ser. Mas, vamos lá, alguma coisa me disse, que eu deveria continuar. E continuei. 


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