Faz dias que espero por isto.
Dias não, faz anos. Não me recordo a primeira vez que fui apresentada à dança.
Eu tinha oito anos a primeira vez que fui a uma aula de dança. Lembro de minha
mãe me convidando para começar a dançar “jazz” pois ela havia feito esta dança
quando era jovem e achou uma idéia legal eu conhecer. A professora da minha mãe
se chamava Eire, algo assim. Eu imaginava uma moça muito alongada de cabelos
longos também, com um macacão preto, de tecido elástico, fazendo giros. Não sei
porquê mas também me vinha a imagem de uma moça dos anos 80 dançando com uma
polaina preta e outra cor-de-rosa, uma cor em cada perna, e um prendedor de
cabelo em tom vermelho, com um rabo preso bem alto. Talvez o meu primeiro contato
com a dança tenha sido pela televisão, assistindo a algum filme em que as moças
se vestem ao modo Flashdance.
Eu,
pequena e com um pouco de gordura acumulada na região da barrida, fui fazer a
minha primeira aula de jazz. Depois da aula, me lembro de chegar na casa da
minha avó, me colocar em frente ao espelho da penteadeira branca, estilo
rococó, de ferro, linda, e repetir alguns movimentos, que eu achava que tinha
experimentado na aula. Um começo do meu envolvimento com o corpo e a dança. Então
eu comecei, três vezes por semana, segunda, quarta e sexta, duas horas por
aula, no período da noite.
Dois
anos depois eu já conseguia fazer abertura, lateral, frontal, e ainda fazia
abertura frontal e continuava ela em um mergulho em que minha barriga deslizava
pelo chão. Dancei, dancei e dancei. Ao final de todo o ano tinha o espetáculo
de dança em que todas as turmas apresentavam uma coreografia, embelezadas por
um lindo figurino e um belo cenário. Além das coreografias de apresentação eu
inventava em casa também as minhas próprias. Colocava para tomar no rádio da
sala o cd do Djavan. Cada música recebia a sua sequência de passos e no final
eu ganhava aplausos e fazia um agradecimento. Me retirava do palco correndo
para a coxia do canto. O que sobrou foi um cartaz de apresentação do teatro, que
eu colei em um álbum de fotos da Minie, uns bilhetes de entrada, uma sapatilha
de ponta, doada pela professora no sorteio de turma, e um encantamento. Alguns
sonhos noturnos, com fitas, sapatilhas e danças, vieram também, depois.
Parei de dançar aos treze anos.
Aos treze porque disse para mim mesma que era coisa de bobinha fazer aula de
dança. Meus olhos delineados de preto e a camiseta do Slipknot não me
permitiriam girar a vontade durante as aulas de um quase ballet. Por alguns
meses, algumas idéias, e uma escolha feita por uma menina envergonhada de viver
mais, eu não me tornei uma bailarina.
Alguns
meses antes de eu sair da dança a professora de jazz, eu a achava linda e a
admirava muito, me disse que no próximo ano eu já poderia entrar no ballet e
tentar pegar ponta, pois a minha experiência com dança e jazz faria com que eu
conseguisse acompanhar as outras turmas de bailarinas. Mas foi um instante de
abertura no tempo, que agora se encontra concluído, fechado, pois é um em-si,
na teoria de Sartre, o que fez com que ficasse para mim algumas imagens de
aulas, do meu corpo se movendo, o meu colã preto, a sapatilha de pano preta, e
o sorriso da minha professora de jazz. Apenas imagens e sensações de imagens.
Então
eu fui vivendo, freqüentei algumas aulas de dança, fui a algumas apresentações
de fim de ano de outras dançarinas, e assisti ao filme do Benjamin Button. A
cena da Daisy, em que ela dança para ele ao redor de um lago, fez com que, em
cada cena de filme, em que eu me “experienciasse” dançando, sentisse viva a
minha vontade de dançar. Nove anos depois, finalmente, decidi me matricular em
uma escola de Ballet.
Matriculei-me nas aulas de ballet
iniciante adulto. Em mim, uma sensação de perda, de vontade, de passado e de
futuro ao mesmo tempo. A tentativa de tornar-me algo concluído, um nirvana, uma
espécie de totalidade, quando eu fizesse a primeira aula de ballet. Era uma
terça-feira. Subi as escadas. Algumas meninas desciam exuberantes com suas
meias rosa bebê, sapatilhas e coques ao topo da cabeça. Ouvi dizer que em cima
da cabeça estaria o chacra coronário, a glândula pineal, ou uma elevação de
postura que poderia fazer um salto em plié deixar a pessoa mais alongada e
pronta para qualquer coisa.
A sala
era um pouco pequena, começou a chover. O espelho repartia o meu rosto em dois,
e eu não conseguia sentir um lado do corpo alinhado com o outro. Parece que o
quadril cairia para um lado se meu braço se movesse para o outro. Dor, cansaço,
mal consegui colocar a ponta dos dedos das mãos no tornozelo. Mas eu me sentia
linda com a minha meia cor-de-rosa de ballet, sapatilhas novas da mesma cor, e
um colã preto com uma saia preta, o que fazia com que eu me sentisse ao menos
naquele espelho que me repartia em várias, uma bailarina.
Espelho
torno, sala torta, bailarina torta. Tudo parecia muito rápido e intenso. Eu
pensando em ser uma bailarina, as meninas ao redor repetindo movimentos, meu
corpo experimentando ser um outro corpo, um mesmo outro corpo. Os primeiros
movimentos que fiz foi plié, tendu (pronuncia-se “tandi”), demi, jeté. As
minhas pernas se movendo em arcos me trazia um sentimento visceral de
pertencimento ao meu próprio corpo. Ainda não consegui fazer muita coisa, foi
pouco, aliás, bem pouco para o que eu me imaginei fazendo. E eu, acostumada com
os passos saltitantes de jazz, com as movimentações sem muito me preocupar com
tanta força muscular, fizeram com que eu desacreditasse na minha potencialidade
de vir-a-ser. Mas, vamos lá, alguma coisa me disse, que eu deveria continuar. E
continuei.
